Miércoles, 26 de Diciembre 2012

Morreu Dona Canô, mãe de Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros seis filhos. Era a matriarca de Santo Amaro.

Dos Cadernos de Lanzarote, Diário IV, uma passagem não escrita por José Saramago mas sim por Pilar del Río, a pedido do Autor, contando a passagem por Santo Amaro, ao som de Caetano Veloso perante a presença de Dona Canô:

O dia terminou em Santo Amaro, onde, como diziam os autocolantes que as pessoas levavam e que conservamos, «vi e ouvi Caetano em Santo Amaro». Há uns anos, José e eu ouvimos Miguel Ríos em Granada: «Volto a Granada, volto ao meu lar», cantava o roqueiro, e o som (todo ele) era tão cálido, tão de dentro, que José́ escreveu um artigo para o Diario 16, intitulado «Alegria do português que foi a Granada», em clara alusão à canção de Miguel Ríos, de regresso à sua terra, e a Rafael Alberti, que escreveu, quando do assassínio de Lorca, aquele memorável poema que se chama Nunca Fui a Granada.

Em Santo Amaro repetiram-se aquelas emoções. Cantava Caetano Veloso no lugar onde nasceu, na praça de uma cidade em festa. Esperavam-no os seus, a sua imensa família, as pedras das ruas, também aqui animadas, e as janelas das casas, todas elas repletas de ansiosos ouvintes de Caetano. E dos amigos de Caetano, porque o artista, como oferta de surpresa, apresentou os seus amigos, Gilberto Gil entre eles, que contribuíram, com os seus diferentes ritmos, para tornar maior a noite. A um lado do palco, majestosa, uma anciã de cabelo branco recolhido permanecia, elegantemente sentada, atenta aos músicos e aos espectadores. Olhávamo-la hipnotizados. Era Dona Canô, a mãe de Caetano, um pouco a mãe de Santo Amaro, animadora de todas as caridades, confidente de penas (as alegrias apregoam-se) e distribuidora da porção de paz de que todos precisamos para poder sobreviver. Também é uma excelente cozinheira, mas aqui «falta-lhe» a generosidade: ela, que dá de comer a quem tem necessidade ou a quem procura o prazer do gosto, emudece quando se lhe fala de revelar os seus segredos culinários. Muitas editoras brasileiras lhe pediram que escreva as suas receitas, mesmo os seus próprios filhos, todos magníficos gastrónomos, desconhecem o toque mágico que cada prato cozinhado por Dona Canô encerra. Eu creio que o elixir da sabedoria, na cozinha como na vida, é a generosidade. Talvez por isso ela não possa revelar nada: os pratos, simplesmente, saem-lhe assim, porque os faz para outros, com amor.

Categorias:

publicado por Fundação Saramago
Enlaces
Buscar
 
Entradas recientes

Soy tan pesimista que cre...

Não são os políticos os q...

[Não escrevo] por amor, m...

Homem novo

Problemas de hombres

En el centenario de Álvar...

Dona Canô

El Perro da tres vueltas

El aviador que salvó Bada...

"Entra, has encontrado tu...

Archivo

Septiembre 2013

Mayo 2013

Abril 2013

Febrero 2013

Diciembre 2012

Agosto 2012

Mayo 2012

Abril 2012

Febrero 2012

Enero 2012

Diciembre 2011

Noviembre 2011

Octubre 2011

Septiembre 2011

Agosto 2011

Julio 2011

Junio 2011

Mayo 2011

Abril 2011

Marzo 2011

Febrero 2011

Enero 2011

Diciembre 2010

Noviembre 2010

Octubre 2010

Septiembre 2010

Agosto 2010

Julio 2010

Junio 2010

Mayo 2010

Febrero 2010

Enero 2010

Diciembre 2009

Noviembre 2009

Octubre 2009

Septiembre 2009

Agosto 2009

Julio 2009

Junio 2009

Mayo 2009

Abril 2009

Marzo 2009

Febrero 2009

Enero 2009

Diciembre 2008

Noviembre 2008

Octubre 2008

Septiembre 2008

Categorias

todas as tags

Suscribir RSS